☽︎Sky and Signs

O céu dos vikings

Os deuses dos dias da semana: Roma e o norte

Em português, os dias de segunda a sexta não levam nome de deus nenhum: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira e sexta-feira são simplesmente o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto dia, contando a partir do domingo. Isso é raro. O espanhol diz lunes, martes, miércoles, jueves e viernes, e o francês e o italiano fazem o mesmo: guardam a semana planetária da Roma tardia, em que cada dia era dedicado a um dos sete astros que se moviam pelo céu, a Lua, Marte, Mercúrio, Júpiter e Vênus. Só o sábado e o domingo o português tem em comum com os vizinhos: sábado vem do sabbat judaico, e domingo, do latim dies Dominicus, o dia do Senhor.

Os povos germânicos adotaram essa mesma semana planetária, mas no lugar dos deuses romanos puseram os seus, aquele que lhes parecia equivalente em cada caso. Por isso, quem fala português e olha os nomes ingleses ou escandinavos está vendo a semana que o português deixou de lado, só que com outros deuses.

Dia a dia

O dia de Marte, o deus da guerra, que em espanhol ainda é martes, virou o dia de Tiw ou Týr: em inglês antigo Tīwesdæg, de onde vem Tuesday, e em nórdico antigo týsdagr. O dia de Mercúrio passou a ser o dia de Woden ou Odin: Wōdnesdæg, Wednesday, óðinsdagr. O dia de Júpiter, o deus do raio, ficou para Thor, o do trovão: Þunresdæg, Thursday, þórsdagr. E o dia de Vênus virou o dia de Frigg: Frīgedæg, Friday.

Na sexta há uma dúvida. A forma do inglês antigo aponta com clareza para Frigg, mas a nórdica antiga, frjádagr, é ambígua; que seja o dia de Freyja é possível, não certo. O Sol e a Lua ficaram como estavam: sunnudagr e mánadagr, como Sunday e Monday, que em português são o domingo e a segunda-feira.

Saturno e o dia do banho

O inglês antigo conservou um único deus romano: Saturno, em Sæternesdæg, o Saturday de hoje. No norte, o sábado se chamava laugardagr, o dia do banho ou da lavagem, de laug, “banho”. Não leva deus nenhum, nem nórdico nem romano.

Na Islândia a Igreja foi mais longe. Ao bispo Jón Ögmundsson de Hólar, que morreu em 1121, atribui-se a troca dos nomes de deuses por nomes neutros: o terceiro dia, o dia do meio da semana, o quinto dia e o dia de jejum. O islandês os usa até hoje. Com o português aconteceu algo parecido. A tradição atribui a mudança a Martinho de Dume, bispo de Braga no século VI, que no sermão Da correção dos rústicos, por volta de 572, reclama de quem dá aos dias nomes de demônios: dia de Marte, de Mercúrio, de Júpiter, de Vênus e de Saturno. A contagem em si, feria secunda, feria tertia, já era o latim da Igreja; raro é o português tê-la levado para a fala de todo dia.

O que os nomes não dizem

Não se sabe com exatidão quando os germanos fizeram a troca. A estimativa habitual a situa depois do ano 100 e antes da cristianização dos povos germânicos, nos séculos VI e VII. Os nomes se formaram entre os germanos do oeste, e os escandinavos os tomaram deles, não diretamente do latim.

Por isso os dias da semana não contam que deus os vikings veneravam na quinta ou na sexta. São traduções de uma semana romana, feitas séculos antes da era viking. O que eles contam é que alguém, em algum momento, achou que Thor era o Júpiter do norte e que Odin se parecia com Mercúrio.

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Fontes