Sköll e Hati, os lobos que perseguem o sol e a lua
Snorri Sturluson conta na Edda em prosa, por volta de 1220, que um homem chamado Mundilfari deu aos dois filhos os nomes de Lua e Sol: Máni, o filho, e Sól, a filha. Os deuses não gostaram e os levaram para o céu. Sól conduz os cavalos do sol, Árvakr, “o madrugador”, e Alsviðr, “o muito forte”. Máni guia o curso da lua e decide quando ela cresce e quando míngua.
Máni leva consigo duas crianças, Bil e Hjúki. Hoje elas costumam ser lidas como as manchas da lua, mas essa leitura é moderna: o texto só diz que as crianças seguem a Lua, “como se pode ver da terra”.
Os dois lobos
Pouco depois, Snorri apresenta os perseguidores. Sköll corre atrás do sol, “e vai alcançá-lo”; Hati Hróðvitnisson salta à frente dele e quer agarrar a lua. Os dois descendem de uma giganta que vive em Járnviðr, a Floresta de Ferro, a leste de Midgard. Dessa mesma ninhada sairá Mánagarmr, “o cão da lua”, que vai engolir a lua e salpicar o céu de sangue, e então o sol perderá o brilho. O nome Mánagarmr só aparece em Snorri.
A Edda poética diz algo parecido. No Grímnismál, Sköll segue o deus resplandecente até a Floresta de Ferro, e Hati, o filho de Hróðvitnir, espreita a noiva ardente do céu; o tradutor Bellows avisa que a Floresta de Ferro é uma correção de uma passagem obscura. Na Völuspá, uma velha giganta da Floresta de Ferro dá à luz a ninhada de Fenrir, e um deles vai roubar o sol do céu; mais adiante, “o sol fica negro” e as estrelas caem. No Vafþrúðnismál é o próprio lobo Fenrir quem apanha o sol, embora antes o sol tenha tido uma filha que percorrerá os seus caminhos depois do fim do mundo.
Um mito dos eclipses?
Todos os textos nórdicos situam o momento em que os lobos engolem o sol e a lua no Ragnarök, o fim do mundo. Nenhum diz que um lobo cause um eclipse qualquer, e nenhum fala de gente que grite ou faça barulho para espantá-lo. O que a tradição diz, portanto, é isto: os lobos perseguem o sol e a lua e vão engoli-los no fim dos tempos.
A ideia de que os vikings viam em cada eclipse um lobo comendo o sol vem de Jacob Grimm. Na sua Mitologia alemã, de 1835, ele passou direto dos lobos da Edda ao medo pagão dos eclipses e aos gritos com que eram recebidos. Esses gritos estão documentados, sim, mas em sermões e leis em latim do continente: Máximo de Turim, no século V; Elói de Noyon, no VII; uma lista de superstições do VIII, que registra a exclamação “Vince luna”, “vence, lua”; Burcardo de Worms, no XI. Em nenhum aparece um lobo. O próprio Grimm observou que os textos nórdicos, que contam o perigo de ser engolido com mais detalhe que ninguém, não mencionam gritaria nenhuma.
Lobos do sol no céu de inverno
Há outra pista, mais modesta. Em dialetos suecos, o parélio, aquela mancha de luz que às vezes aparece ao lado do sol nos dias frios, se chamava solvarg ou solulf, “lobo do sol”; em norueguês, solulv. O estudioso Rudolf Simek propôs que os dois lobos poderiam ser uma imagem desses parélios e dos seus parentes ao lado da lua, e Christian Etheridge apoiou a ideia em 2012.
Vale lembrar também que Sköll, Hati e Mánagarmr só são conhecidos por textos islandeses do século XIII. Não sabemos quanta gente da era viking contava a sua história.
Ver no céu
Fontes
- Snorri Sturluson, Gylfaginning, tradução de Brodeur, 1916 (Wikisource)
- Grímnismál, tradução de Bellows, 1923 (Wikisource)
- Völuspá, tradução de Bellows, 1923 (Wikisource)
- Jacob Grimm, Deutsche Mythologie, cap. XXII: Himmel und Gestirne (Projekt Gutenberg)
- Christian Etheridge: A Systematic Re-evaluation of the Sources of Old Norse Astronomy, 2012