Os olhos de Thiazi, duas estrelas da Edda
Entre os poucos astros com nome próprio que aparecem nas Eddas estão os olhos de Thiazi, Þjaza augu em nórdico antigo. Thiazi é um gigante que os deuses mataram. Snorri Sturluson conta no Skáldskaparmál, por volta de 1220, que Odin, como reparação a Skaði por aquela morte, “pegou os olhos de Thiazi, lançou-os ao céu e fez deles duas estrelas”.
É uma história curta, mas diz algo interessante: para quem a contava, havia no céu duas estrelas que todo mundo podia apontar como os olhos do gigante.
Odin ou Thor?
A Edda poética conta a façanha de outro jeito. No Hárbarðsljóð, um poema de provocações entre Thor e um barqueiro que é Odin disfarçado, Thor se gaba de ter sido ele: diz que derrubou Thiazi e lançou os olhos do filho de Alvaldi ao céu ardente, e que esses são os maiores sinais das suas façanhas, porque todos os homens podem vê-los desde então.
As duas fontes não concordam, portanto, sobre quem lançou os olhos. Snorri diz Odin; o poema, Thor. E nenhuma das duas diz que estrelas eram. O tradutor Henry Adams Bellows resumiu em 1923 com simplicidade: não se sabe que estrelas se chamavam os olhos de Thiazi.
A conjetura de Castor e Pólux
A identificação que hoje se lê em quase toda parte vem do século XIX. Jacob Grimm, na sua Mitologia alemã de 1835, pensou em duas estrelas bem próximas, iguais em brilho e tamanho, e acrescentou com um ponto de interrogação: “talvez os Gêmeos?”, ou seja, Castor e Pólux. O grande dicionário islandês-inglês de Cleasby e Vigfússon, de 1874, repetiu a ideia, também com interrogação.
Nenhuma fonte medieval nomeia essas estrelas. Que os olhos de Thiazi sejam Castor e Pólux é, portanto, uma suposição razoável de dois estudiosos do século XIX, que eles mesmos marcaram como duvidosa. Se você quiser olhar para o céu pensando em Thiazi, Gêmeos é uma boa candidata, desde que lembre que a Edda não diz isso.
O mesmo vale para o resto deste mito: os textos são islandeses e cristãos, escritos dois ou três séculos depois do fim da era viking. Eles nos dizem que histórias se contavam na Islândia do século XIII, e isso já é bastante.