Os nomes nórdicos das estrelas e a sua idade
Na internet não faltam listas de “nomes vikings das estrelas”. Quando se procura a data de cada um, o quadro muda bastante: alguns aparecem em manuscritos islandeses do século XII, outros na fala popular dos séculos XVI e XVII, e um ou outro foi inventado por um erudito do XIX. Nenhum documento mostra que fossem usados na era viking.
Os mais antigos, do século XII
Os nomes com as melhores credenciais estão num manuscrito islandês de cômputo, o chamado Rím I, cuja parte mais antiga é de por volta de 1192, e em umas glosas de nomes de estrelas do mesmo códice. Ali a Ursa Maior e a Ursa Menor são vagn, “o carro”, e kvenna-vagn, “o carro das mulheres”. Órion, ou talvez só o seu cinturão, são os Fiskikarlar, “os pescadores”, um nome que, segundo estudiosos do início do século XX, ainda vivia na Noruega e na Islândia. As Híades são Úlfs keptr, “a mandíbula do lobo”; se isso tem a ver com Sköll, Hati ou Fenrir é uma conjetura.
É preciso acrescentar um aviso: esse manuscrito bebe muito de Isidoro, Beda e Honório, de modo que quase toda a sua ciência do céu é saber latino, não nórdico. Os três nomes acima são dos poucos que parecem próprios.
O carro de Odin e a roca de Frigg
Em sueco, o Grande Carro, as sete estrelas mais brilhantes da Ursa Maior, se chama Karlavagnen, o carro dos homens ou dos camponeses; a primeira citação no grande dicionário sueco é de 1538, e no inglês antigo existe a forma irmã carles wæn. Mais tarde o povo o entendeu como o carro de Carlos Magno.
O famoso “carro de Odin”, Óðins vagn, não aparece em nenhum texto em nórdico antigo. Grimm já apontava isso: não há carro de Odin, só “o carro do céu”. A prova real é holandesa: Woenswaghen, o carro de Wodan, num manuscrito de 1470. Que os vikings o chamassem assim é uma suposição.
Com o cinturão de Órion, as Três Marias, acontece algo parecido. Grimm registrou em 1835 o nome popular escandinavo roca de Frigg, Friggerok, e o seu substituto cristão, a roca de Maria, que já aparece em 1695. É um nome do campo, da época moderna; não há testemunho medieval. Já Friggjarstjarna, “a estrela de Frigg”, aparece, sim, em prosa medieval para Vênus, embora provavelmente imite o latim stella Veneris.
Sirius e a Via Láctea
Lê-se muitas vezes que Sirius se chamava em nórdico antigo Lokabrenna, “o incêndio de Loki”. O nome vem de Finnur Magnússon, um erudito islandês que o publicou em 1828, e também é dele a ligação com o fogo do Ragnarök. Nenhuma fonte medieval o traz.
A Via Láctea é em sueco Vintergatan, “a rua do inverno”, com uma primeira citação de 1579. Muito antes, por volta do ano 970, o cronista saxão Widukind de Corvey conta que a Via Láctea ainda se chamava no seu tempo pelo nome de Iring, o caminho de Iring; mas isso é saxão, não nórdico. E Chaucer, na Inglaterra do século XIV, a chamou de rua de Watling.
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Fontes
- Christian Etheridge: A Systematic Re-evaluation of the Sources of Old Norse Astronomy, 2012
- Cleasby e Vigfússon, Icelandic-English Dictionary (1874): vagn
- Svenska Akademiens ordbok: karlavagn
- Jacob Grimm, Deutsche Mythologie, cap. VII: Wuotan (Projekt Gutenberg)
- Cleasby e Vigfússon, Icelandic-English Dictionary (1874): brenna